A Du Moulin Mocha

....Logo que surgiram no mercado capixaba as espingardas mochas, o Velhão, nosso primogênito Adalho, adquiriu uma, calibre 32, Du Moulin. Aquilo, além de inovação, era também e depois de tudo, uma novidade não muito aceita, principalmente para aqueles imigrantes italianos acostumados com os velhos trabucos de cão.

....A notícia logo se espalhou pelo vilarejo e de quando em vez batia à porta um curioso qualquer que queria "ver e confirmar com as mãos", a estranha arma. Meu pai, no começo, fazia parte daqueles que desdenhavam os franceses, achando "aquela coisa" sem qualquer versatilidade para as caçadas de pacas. Com o tempo, porém, foi adaptando-se e, um pouco mais, só participava de caçadas se aquela espingarda ficasse com ele.

....Levava-a para aonde ia, sem perdoar, jamais, o velho Scarpatt que dissera, certa vez, que ele possuía um calo seco no ombro de tanto carregá-la. Mas, apesar das palavras do Scarpatt terem atingido em cheio o brio de meu pai, tínhamos de admitir que, o que insinuara, era a mais pura verdade.

....
....Depois dos cinqüenta anos, devido as constantes crises alérgicas de asma, meu pai parou definitivamente de trabalhar. Para não definhar de tédio, passou a ocupar o tempo perseguindo os chororões do morro do Canal, os tururins da chapada do Catelan ou as pacas de um capão de mata dos Lorenzonis. Esse último era seu eterno desafio, já que as pacas desfrutavam da vantagem do riacho São Pedro e da morosidade de meu velho. E os anos começavam e terminavam sem que o Chapocão (cão retaco, branco e cotó) se visse compensado de suas andanças por aqueles extensos chapadões. Aliás, o Chapocão já conhecia todas as tocas daqueles roedores e levava, acredito, tudo na mais sã esportividade. Contentava-se em tirá-las dos buracos e jogá-las nas água frias do São Pedro, o que sempre lhe garantia, ao retornar, um naco mais suculento de polenta.

....A fazenda dos Lorenzonis ficava a um quilômetro da vila, na estrada que ligava Marilândia ao distrito de São Pedro. Nela havia uma serraria onde trabalhava todo o clã Lorenzoni. Todos eles já estavam acostumados a ver meu pai com seu boné tipo inglês, calça de cáqui, facão Policarpo Pupim, camisa de mescla, cachorro cotó branco, espingarda no ombro, passar por ali a passos trôpegos, em direção à mata. Como sempre ia e vinha de mãos abanando, os Lorenzonis nunca se preocuparam em demonstrar ciúmes pelas pacas de suas propriedades.

....Contudo, o boato da Du Moulin mocha havia corrido bastante e logo chegou aos ouvidos dos Lorenzonis que, nessa manhã, estavam aguardando aquela hora infalível da passagem de meu velho. Estavam sentados sobre os toros do tombadouro quando meu pai chegou e os cumprimentou. Falaram por algum tempo de outros assuntos, chegando, por fim, ao ponto desejado:

....– Soubemos que comprou uma espingarda sem cão.

....– Foi o Adalho, meu filho.

....Foi dizendo isso e passando a arma para os mais curiosos que, avidamente, correram mãos e olhos, detalhadamente.

....– Isto deve ser uma porcaria – comentou o velho Henrique, alisando com a mão o lugar onde deveriam estar posicionados os cães.

....– Muito perigosa – acrescentou o João, irmão mais novo do Henrique.

....– Qual nada – retrucou meu pai, tomando a arma com o propósito de demonstração elucidativa.

....Os Lorenzonis acercaram-se como meninas que brincam de roda, enquanto meu velho, entusiasmado, enumerava as vantagens da arma.

....– Esta não oferece qualquer perigo. É extremamente versátil, pois num único escorregar do polegar, a gente tem os dois cães engatilhados, prontos para um disparo duplo, se for necessário.

....E em cada argumento e explicação, mais os Lorenzonis se agrupavam, até formar um bloco compacto. No meio, meu pai falava animado, sem se importar com a impaciência do Chapocão que latia afoito e desassossegadamente, de cima do barranco da estrada. E era tal a aglutinação de pessoas que a espingarda passou a ser examinada na vertical (graças a Deus que assim o foi) pois lhe era impossível dar outra posição.

....E quanto todo aquele palavreado já parecia surtir o efeito desejado, com alguns Lorenzonis já até admitindo os argumentos que estavam sendo apresentados, eis que um estrondo ensurdecedor se fez ouvir, cobrindo a todos com uma nuvem de fumaça embaçadora. Quando essa se desfez, o que havia de Lorenzonis arrepiados e boquiabertos, não era fácil! No meio, qual boneco de cera, meu pai se mantinha ereto, lívido e imóvel.

....Realmente, ainda dessa feita, os franceses não convenceriam os velhos italianos: era mesmo uma porcaria perigosa, aquela coisa sem cães.

....Em casa, calmo e inconformado, meu pai procurava, sem encontrar, a razão daquela detonação misteriosa. Tinha sido um vexame, um grande vexame, capaz, inclusive, de fazer com que abandonasse, por completo, aquelas caçadas de pacas lá nos Lorenzonis. Os roedores devem ter mandado "celebrar missas em ações de graças pelo acontecido", pois nunca mais precisaram acordar cedo, correr na frente de um cachorro idiota e mergulhar nas águas geladas do córrego São Pedro.

. ..Texto de Livaldo Fregona

. ..Este texto encontra-se disponível também no endereço http://www.jupiter.com.br/u/livaldo/dumoulinmocha.html

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Dados da Pesquisa
8452 pessoas divididas em 181
ramos familiares, Esses ramos estão distribuídos pelos seguintes Estados:
ES: 2961 pessoas em 24 ramos;
MG: 267 pessoas em 1 ra
mo;
RS: 3105 pessoas em 67 ramos; e
SP: 2119pessoas em 89 ramos.
dados computados até: 30.04.14
 
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